sábado, 14 de novembro de 2015

((ou "As cidades são nós"))





Adagio for Strings de Samuel Barber conduzido por
Leonard Bernstein
*

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Clara Nunes explica Nietzsche

"58 - O que se pode prometer
Pode-se prometer ações, mas não sentimentos, pois estes são involuntários. Quem promete a alguém amá-lo sempre ou odiá-lo sempre ou ser-lhe fiel, promete algo que não está em seu poder; o que pode perfeitamente prometer são ações que, na verdade, são geralmente as consequências do amor, do ódio, da fidelidade, mas que também podem provir de outros motivos, pois a uma só ação conduzem diversos caminhos e motivos. 

A promessa de amar alguém sempre significa, portanto: enquanto eu te amar, te mostrarei as ações do amor; se não te amar mais, continuarás no entanto a receber de mim as mesmas ações, embora por outros motivos; de modo que na cabeça dos outros persiste a aparência de que o amor estaria inalterado e sempre o mesmo.

Promete-se, portanto, a persistência da aparência do amor, quando, sem deslumbrar-se a si mesmo, se jura a alguém amor eterno." (Nietzsche, em 'Humano, demasiado humano')

(Clara Nunes, "Mente", composição de Eduardo Gudin e Paulo Vanzolini)

sábado, 16 de outubro de 2010

Vyzkoušejte

Vyzkoušejte: procházení internetových stránkách Česká republika přeložena do portugalské překladatelské nástroje od Google. Nový svět ukáže, virtuální svět s jedinečným jazykem. Jediný jazyk, na kterých Google má moc, sílu technologie, která pochází hodně povahu těchto nešťastný hledání pravdy. Nesporné moci a racionální, tak jemné, že téměř není skutečnou moc, je jako síla, věčná jiskra, věčným ohněm.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A MORTA*

(Nelson Rodrigues)

Basta dizer o seguinte: era uma pequena cidade, quase inexistente, metida nos cafundós-do-judas. Nem rádio, nem telefone, nem dentista. E o que a caracterizava acima de tudo era a falta de mulher. Ao todo uma meia dúzia para uns cento e cinqüenta seringueiros. Acresce que estavam todas casadas e que os maridos eram válidos e com um senso feroz e homicida de propriedade.
Eles avisavam:
— Quem se meter a besta, já sabe. Passo fogo!
E ninguém mexia com as infelizes. Elas viviam encerradas nos seus buracos, sob controle tremendo, sem alegria nenhuma. Quando abriam a boca, era um rir de dentes cariados. Não cuidavam de si, não se enfeitavam. Enfeitar para quê? Para o próprio marido? De pé no chão e imundas, não interessariam a ninguém, salvo ao esposo e aos cento e cinqüenta seringueiros, coitados, que viviam no mato e que já nem se lembravam da própria condição humana.
E foi nesta cidade, esquecida de Deus, que o Quincas bateu um dia. Chegou, foi espiando e perguntando, a um e outro:
— Como é que é o negócio aqui, hein?
Disseram:
— Uma droga.
Resposta vaga que não satisfez a quem vinha de fora, e não conhecia coisa nenhuma da cidade, nem suas pessoas, nem seus costumes. No único boteco do lugar, com um companheiro acidental, o Quincas explicou que fora para ali, sabe por quê? Baixou a voz:
— Matei uma cara. Estou fugindo da polícia.

A MULHER
Com a tremenda vitalidade dos seus vinte e cinco anos, trazia uma idéia fixa. E perguntou:
— Aqui tem boas pequenas?
— Tem e não tem.
Espantou-se:
— Como?
O outro foi mais claro:
— Todas as mulheres aqui são casadas.
— Todas?
— Todas.
E o Quincas, na febre dos vinte e cinco anos, insistiu:
— Mas não se dá um jeito? Não se arranja uma solução?
O companheiro cuspiu por cima do próprio ombro e foi categórico:
— Não há solução.
Não houve limites para a decepção de Quincas. Pulou:
— Essa é a maior! — E, cutucando o outro: — “Nem pagando mais? Muito mais? O dobro?”.
Batia no próprio bolso:
— Faz uma forcinha, faz!

A FOME
Então, desanimado, o Quincas começou a perambular pela cidade. E, pouco a pouco, foi perdendo as ilusões. No fim de dez dias, era outro homem: fez uma meia dúzia de amigos e perguntava:
— Como é? As mulheres daqui não dão as caras?
— Você é besta!
— Por quê?
Riram na cara dele:
— Você pensa que os maridos vão deixar? A mulher que meter o nariz do lado de fora está frita.
Quincas coçou a cabeça, praguejou:
— Terra amaldiçoada!
Nostálgico da cidade, nostálgico do litoral, acabou se lembrando da pequena que matara. Contou que ela o passara para trás. Mas, naquele fim do mundo, em pleno território do Acre, suas idéias sobre a fulana já eram outras. Dir-se-ia que o ódio ia, gradualmente, extinguindo-se no seu coração. Admitia:
— Tinha suas qualidades.
Os amigos, com água na boca, faziam perguntas diretas e sôfregas:
— Bom corpo?
E ele, fincando os cotovelos na mesa, numa convicção profunda:
— Que coxas!
Os outros se entreolhavam, numa inveja medonha. Houve quem explodisse:
— Você é uma boa besta. Não devia ter matado. Que palpite infeliz!
Quincas acabou reconhecendo:
— Foi um golpe errado!
E, agora, já se contentaria com o mínimo, ou seja, “ver” uma das mulheres locais. Seria uma satisfação visual, uma espécie de triste e idiota compensação. Interpelava os habitantes: “Como é que vocês agüentam?”. Os outros respondiam: “A gente se acostuma”. E ele, passando a mão pela cabeleira imensa, à Búfalo Bill, dava murros na mesa:
— Pois olha! Eu não agüento. Qualquer dia estouro!
A falta de uma mulher doía mais nele do que fome, sede. Dizia a si mesmo: — “Se, ao menos, um desses pilantras morresse!”.

A IDÉIA
Um dia, no boteco, aventurou:
— Sabe o que é que mais me admira? Que me deixa besta?
— O quê?
E ele, na sua fúria contida:
— Que ninguém aqui tenha se lembrado de matar um pilantra desses e ficar com a mulher!
Houve um silêncio. Todas as caras presentes pareciam espantadas. Um fulano, que catava lêndeas na cabeça de outro, interrompeu esta função. Estava de boca aberta, num assombro absoluto. Deixou-se cair numa cadeira, como se a idéia, que jamais lhe ocorrera, o deslumbrasse. O Quincas, vendo o efeito, tratou de explorá-lo. Era direito aquilo, era? Enquanto uma meia dúzia tinha mulher, cento e cinqüenta sujeitos não. Deu outro murro na mesa:
— Não somos palhaços de ninguém! — E esbravejava, cada vez mais exaltado: — Está errado, erradíssimo!
Então, pouco a pouco, as bocas, as mãos, os olhos foram se transformando. Dir-se-ia que a loucura do Quincas contagiava todo mundo. E o rapaz, arregimentando adesões, berrava: “Por que é que o marido há de ter mais direito do que nós?”. Formulava o problema com uma expressão de triunfo: “Respondam”. E, fora de si, aduzia o argumento numérico: “O marido é um só e nós somos cento e cinqüenta!”. Queria, em resumo, que fossem, de casa em casa, arrancar as mulheres. Houve um súbito berro coletivo no boteco. E teria acontecido o diabo se, de repente, não irrompesse, ali, um sujeito, de pés descalços e barbudo como os outros. O sujeito anunciou:
— A mulher do Baiano está morrendo!

O ROSTO
De um instante para outro, a fúria se fundiu em espanto. Quincas apertou a cabeça, entre as mãos, gemendo:
— É o cúmulo! É o cúmulo!
E, sem mais palavra, aqueles homens atormentados dirigiram-se, num maciço e solidário grupo, para a casa do Baiano. Iam fazer o quê? Nem o próprio Quincas poderia dizê-lo. Crispavam as mãos e suas gargantas estavam secas e ardentes. À medida que iam avançando pelo mato, o Quincas tomava-se de uma fúria obtusa contra as potências misteriosas do destino. E só dizia, entredentes: “Como é que pode? Como é que pode?”. Parecia-lhe provação demais que morresse uma mulher num lugar em que existiam tão poucas.
Enfim, chegaram diante da casa do Baiano. Quincas adiantou-se, mas não chegou a bater, porque o próprio Baiano surgia diante do grupo, apontando a carabina. Lá dentro ninguém chorava pela mulher que, doente do peito, acabara de morrer. E o dono da casa, com os olhos injetados, a boca torcida, avisou:
— Ninguém toca em minha mulher! O primeiro que der um passo come fogo!
Era taciturno e mau, e cumpriria a ameaça. Então, Quincas, mais moço que os outros, com a memória ainda recente das mulheres da cidade, pediu, implorou:
— Não queremos nada demais. Só espiar tua mulher. Um pouquinho só.
O marido acabou deixando. E houve o desfile, maravilhado, pelo quarto, onde estava a infeliz, um esqueleto com um leve, muito leve, revestimento de pele. Eram homens praticamente loucos, possessos. Mas respeitaram a morte. Alta noite, o marido apanhou de novo a carabina e foi enxotando:
— Fora daqui, todo mundo! E não pensem que eu sou besta de enterrar minha mulher! Não confio em nenhum de vocês, seus cachorros!
Saíram todos, já na antecipada nostalgia do rosto feminino. Sozinho, o marido fechou tudo, arriou as trancas da porta. E, então, encerrado com a mulher, derramou querosene na defunta e em si mesmo; riscou um fósforo e fez a dupla fogueira.
Do lado de fora, os homens rondavam, enfurecidos.



* da série "A Vida Como Ela É", que foi publicada no jornal "A Última Hora" na década de 50, no Rio de Janeiro. Certamente é o único ou um dos únicos escritos de Nelson Rodrigues que tem como pano de fundo o então território do Acre. Imagem: Berenice Barreto, "Amazônia" 50 x 40 cms, acrílica sobre a tela.

domingo, 4 de julho de 2010

Forças tênues


As sutilezas tocam. Prende-se. Prende-se pelas forças tênues. Confunde-se com as fronteiras nebulosas. Mas a névoa que turva a visão é rala. São os limites fluidos que afligem. Tudo parece claro - para os que não são. Tem ausência. E, também, a carência que decorre dessa ausência, a carência que é esse pretume. E o que busca? Em aquarelas vazias as cores. A vida é frouxa. A frouxidão aflige. Debilidade, debilidade

domingo, 20 de junho de 2010

Gullar

O Ferreira Gullar anda um pouco ranzinza, isso (ou isto?) todo mundo já percebeu, Mas nesse (ou neste?) texto publicado na Folha em 20/06/2010 ele estava especialmente inspirado!


FERREIRA GULLAR

Quando o errado está certo


Sabe-se que, para a maior parte dos linguistas, não existe isso de falar errado: todo o mundo fala certo



MUITA GENTE torce o nariz quando um chatola, como eu, começa a reclamar dos erros de português que se cometem nos jornais e na televisão. Desses, muitos dos que os cometem são profissionais, mas estão pouco ligando para o que consideramos escrever e falar errado.
Sabe-se que, para a maioria dos linguistas, não existe isso de falar errado: todo o mundo fala certo. Admitem existir uma "norma culta", que obedece às regras gramaticais, mas violá-las não é propriamente errar. Ouvi de um deles que está tão certo dizer "pobrema" como "problema". Obtuso como sou, tenho dificuldade de entender por que eles mesmos vivem escrevendo livros e colunas em jornais, ensinando como se deve escrever. Ora, se não existe falar errado, por que ensinar?
Não deve o leitor concluir daí que sou aquele morrinha que vive catando os deslizes de cada um, mesmo porque não posso me considerar um grande conhecedor da língua. Gosto dela, prezo-a ou, melhor dizendo, considero-a uma das extraordinárias criações do gênio humano. Não é maravilhoso imaginar que, muito antes de surgirem os gramáticos, nossos ancestrais já falavam obedecendo às normas que tornaram o idioma meio de comunicação entre as pessoas e de invenção do nosso mundo cultural?
Pense bem nesta maravilha: a palavra "este" indica algo que está perto de mim; "esse", o que está perto de você; e "aquele", o que está longe de nós dois. Eis a linguagem expressando as relações reais do sujeito e das coisas do mundo. Não obstante, todos os locutores de rádio e televisão, como a maioria dos jornalistas, referindo-se ao que está perto de si, usam "esse" em lugar de "este". E isso é hoje tão frequente que já nem se repara.
Ninguém vai morrer por isso, mas não deixa de ser preocupante observar as pessoas deformarem e empobrecerem a língua, usando, por exemplo, "sobre" como regência de quase todos os verbos.
Em vez de "comentou os fatos" dizem "comentou sobre os fatos"; em vez de "quando falou do problema", dizem "quando falou sobre o problema"; em vez de "alertado do ataque", dizem "alertado sobre o ataque", e por aí vão.
Em certas frases, o uso de "sobre" chega ao limite do desatino: "o deputado aguarda o desmentido sobre a denúncia", quando seria muito mais simples e elegante dizer "aguarda o desmentido da denúncia". Vá você, agora, explicar como surgiu essa mania do sobre, que espero seja apenas uma mania, como outras que surgiram e se foram.
Lembram-se da época em que todos usavam a expressão "a nível de"? Servia para qualquer coisa, como ouvi um entrevistado afirmar que, "a nível de ração para porcos, o melhor seria...". Felizmente, essa mania passou, o que me faz crer que a língua termina por excluir de si as excrescências que nela se introduzem. Mas parece que nem sempre, porque, às vezes, o mau uso se generaliza e até mesmo se oficializa.
Existe coisa mais descabida do que chamar de "sambódromo" uma passarela para desfile de escolas de samba? Em grego, "-dromo" quer dizer "ação de correr, lugar de corrida", daí as palavras autódromo e hipódromo. É certo que, às vezes, durante o desfile, a escola se atrasa e é obrigada a correr para não perder pontos, mas não se desloca com a velocidade de um cavalo ou de um carro de Fórmula 1.
Muitas vezes, à irreverência junta-se a ignorância, a pouca leitura dos bons escritores. Não é que tenhamos de escrever como escrevia Camões, mas o conhecimento do idioma, em seus diferentes momentos históricos e em suas mudanças, ajuda-nos a preservar a língua no que tem de essencial como também a transformá-la sem lhe trair a natureza. É essa ignorância que leva alguns redatores de televisão a substituir "risco de vida" por "risco de morte", achando que esta é a expressão correta. Ganha-se em obviedade e perde-se em elegância.
Já mencionei aqui, noutra ocasião, a tal lei da termodinâmica, segundo a qual os sistemas tendem à desordem. Sendo a língua um sistema, está sujeita a desorganizar-se, como o atestam os exemplos citados, tanto mais hoje em dia, quando a TV induz milhões de pessoas a falar errado. Essa mesma TV que poderia se tornar um instrumento decisivo na luta contra a entropia. Ou será que escrever certo é elitismo?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Rios superficiais.

Rios falsos, rios enganosos:
arfei em ambos,
sei que são traiçoeiros e aleivosos
seus talvegues acidentados,
escondidos pelo turvo
até soçobrarem os barcos
cos cascos
desfolhados.

Suas águas paradas,
contidas e represadas,
eventualmente irrompem
das barreiras frágeis e precárias
que mentem

e assim se revela - submersa,
toda a sujidade assoreada
que, surpreendentemente,
não causa qualquer espanto.
Não a mim, que de há muito,
ao contrário do que se tem por óbvio,
sei que um tampouco é rio
e que o outro nunca foi branco

Quem sou eu