domingo, 14 de dezembro de 2008

study after an e. e. cummings' poem

may i feel said he
(i'll squeal said he
just once said he)
it's fun said he

(may i touch said he
how much said he
a lot said he)
why not said he

(let's go said he
not too far said he
what's too far said he
where you are said he)

may i stay said he
(which way said he
like this said he
if you kiss said he

may i move said he
is it love said he)
if you're willing said he
(but you're killing said he

but it's life said he
but your wife said he
now said he)
ow said he

(tiptop said he
don't stop said he
oh no said he)
go slow said he

(cccome?said he
ummm said he)
you're divine!said he
(you are Mine said he)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Infância (ou "Futuro")


Gostava de galgar as escarpas íngremes, e sentir nas palmas das mãos o molhado da condensação da névoa sobre a rocha nua. Névoa, esta, incessante, e de tal modo densa, que lhe umedecia a face toda tal como à pedra. Liqüefeito, o vapor escorria na cara, e, misturado que ficava ao suor advindo do esforço empreendido na escalada, descia até a boca, onde fazia sentir o sabor timidamente salgado próprio de lágrima. Ah, as escarpas... por conta da cerração, em cume de uma delas se chegando, as outras não se viam. E eram várias delas, todas alcantiladas, atemorizantes, soberbas. E como lhe aprazia lançar ao despenhadeiro as pedras que lá no ápice encontrava e as ouvir tocando superfícies outras que não enxergava! E escutar novamente, multiplicado pelos ecos, tanto o barulho do choque, quanto o do rolar delas pelos taludes, até que acabassem, os ecos; era como viessem do nada. Lembrava-se, então, de quando chorava criança, e como provava das lágrimas e gostava. E como não queria que os ecos acabassem nunca.



(imagem: Henri Rousseau, Menino nas rochas, 1895/1897, 55 X 46 cm)

terça-feira, 29 de julho de 2008

17

"No baile em que dançam todos,
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem lá estar."


(Fernando Pessoa, in "Quadras ao gosto popular")

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Ouvir sonhos


Veio ter comigo ontem à noite, em meu sonho, um amigo de quem ando afastado e por quem nutro muitas saudades. Pediu conselho inusitado: como trabalhasse analisando papéis numa empresa em Campo Grande, todos os dias um táxi fretado o levava para o Santos Dumont, onde embarcava num jatinho. Alguns minutos depois, descia num aeroporto na Zona Oeste, no qual havia outro táxi o aguardando para conduzi-lo ao destino final. Indagou-me se não seria mais interessante guiar, ele mesmo, seu próprio carro, e ir ziguezagueando pelas ruas internas para escapar dos engarrafamentos. Evidentemente, argumentei que deveria ser muito mais interessante poder andar de avião cotidianamente. Ele, em resposta, usou de metáfora futebolística para ilustrar seu dilema, e rimo-nos muito – mais ele que eu – e bebemos chopp na Cobal. Rimos, também, da feiúra da Cobal. E eu fiquei pensando, depois, em como os papéis que ele analisava eram importantes.

(imagem: Paul Klee, O peixe dourado, 1925/26, 50 X 69 cm)

quinta-feira, 19 de junho de 2008

cristal líquido

"Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura..."
Alberto Caeiro



Cheguei mais perto e vi que era um magnífico cristal. Cheio de faces, múltiplas delas; algumas translúcidas, outras completamente negras, algumas espelhadas. De cada ângulo que o fitava, observava novos detalhes. Cada raio de luz que incidia parecia transformá-lo em um cristal diferente, dadas as cores que resplandeciam, imagens distorcidas que surgiam não-sei-donde-nem-como, e reflexos que reluziam. Eu tirava os olhos do cristal e tentava imaginá-lo. Não conseguia: sempre esquecia uma sombra, não lembrava de um vértice, não podia ter certeza da existência de uma face e de sua respectiva posição, lá onde ela estaria oculta caso o cristal estivesse, de fato, sendo observado. Era como se, arisco que fosse, não deixasse que minha memória o domasse, de modo que não conseguia aprisioná-lo e o levar comigo para o pensamento. Punha-lhe, novamente, os olhos, e lá estava ele – inédito. E assim, por milhões de anos, permaneceu sempre inédito a todos, a cada segundo e a cada movimento do sol.
I

Como tivesse o pulmão embebido em água, o ar lhe faltava. Porque estava submerso, e assim permaneceria por tempo indeterminado sem que nada fizesse para se livrar do aquário em que se enfiara e pelo qual acabou por se acostumar. Era jaula envidraçada, mas correntes não havia. Esclareça-se, desde logo, que até poder-se-ia sustentar que as havia, muito embora se tratasse, ao contrário do que se poderia erroneamente pensar, de suaves correntes de água que o guiavam languidamente pela massa líquida e, não, de correntes talhadas em ferro. Flutuava caótico no escasso espaço em que se encontrava, porém tão docemente sem ordem, que a própria brandura com que seguia era a sua ordem. É bem verdade que as cadeias de água às quais se agarrava não o prendiam, propriamente – mas não se podia dizer que não cuidasse de um prender-se por se deixar levar.


II

Eram os vidros que cingiam as veredas aquáticas pelas quais era conduzido. Mas, limpíssimos e transluzentes que eram, deles não se apercebia. Não se sabia se tal fato decorria de sua qualidade de transluzentes, ou por não querer, ele, simplesmente, deles se aperceber. Conduzido até o extremo da vereda pela qual as correntes o guiavam – o vidro –, retornava por outra (ou pela mesma, sabe-se lá, vez que não há consenso acerca de se cingida, a vereda finda, ou se o tímido turbilhão de água ocasionado pela força tênue da corrente tolhida pelo vidro somente lhe altera a direção). Fato é que, preso àquelas cadeias frouxas, seguia sem que se interessasse pelo que ocasionava a sensação engraçada e curiosa de girar e sacudir-se livre em meio ao revolvimento da água e sentir um frio na barriga esquisito e gostoso, retornando, depois, ao mesmo estado em que anteriormente se encontrava: flanando pelas veredas caóticas guiado pelas correntes de água contendidas com os vidros do aquário. Todo o inusitado da vida era aquele calafrio.

III

O desagradável incômodo de ter os alvéolos impregnados de líquido lhe parecia ínfimo diante da monstruosidade daquela sensação de estar-se deixando levar pelas correntes e, no meio do calabouço envidraçado, asseado e no qual podia flanar, posto que não estava preso a grilhões, sentir-se, ao cabo, protegido. Seguro. Acautelado. Tudo porque tinha a imatura percepção de que a água não tinha peso algum porque era transparente e fluida, mal sabendo que, não sendo muito menos pesada que o ferro, bastava que sua covardia lhe fizesse mais fraco que a frouxidão própria das ligações estabelecidas entre os elos da cadeia d’água para que permanecesse eternamente preso.

(Imagem: Francis Bacon, Study After Velasquez I, 1950, 198 x 137 cm)

Quem sou eu

Rio de Janeiro, RJ, Brazil